Nu reclinado, Amélie (1852), de Félix-Jacques Moulin.
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Além de na pintura e na escultura, o nu também se desenvolveu em outras artes, da dança e o teatro até novos meios e técnicas como a fotografia, o cine, a televisão e a revista em quadrinhos. Nestes meios, especialmente desde o século XX, o nu costuma estar vinculado ao erotismo, que representa um forte reclamo a nível comercial, pelo qual foi profusamente usado pela publicidade. Nestes meios costuma percorrer-se a atores e modelos fisicamente atraentes, cobrando um grande auge nos últimos tempos a demanda de imagens de celebridades despidas no novo meio de comunicação de massas, internet. Também proliferaram desde meados do século XX as revistas eróticas, como Playboy, Penthouse e Hustler, que oferecem imagens de modelos despidas e implicaram um marco na educação sexual de muitos adolescentes. Contudo, não todo o nu é erótico, e numerosos artistas trataram o tema do corpo humano despojado de roupa como metáfora da vulnerabilidade do corpo e da fragilidade da vida.
Fotografia
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Os dois caminhos da vida (1857), de Oscar Gustav Rejlander.
A aparição da fotografia implicou uma autêntica revolução no terreno das artes plásticas, pois por diversos procedimentos técnicos permitia que qualquer pessoa, ainda sem formação artística, captasse imagens de uma forma muito mais realista que qualquer pintura. A fotografia moderna começou com a construção do daguerreótipo por Louis-Jacques-Mandé Daguerre, a partir do qual se foram aperfeiçoando os procedimentos técnicos. Em que pese a ser uma realização puramente técnica, cedo foi vislumbrada a potencialidade artística deste novo meio, pois a obra resultante podia ser considerada artística enquanto inclui a intervenção da criatividade da pessoa que capta a imagem, derivada do trabalho de percepção, design e narratividade efetuada na tomada da imagem. Assim, cedo a fotografia passou a ser considerada uma das artes, concretamente a oitava.nota 6 No século XX estendeu-se notavelmente o seu uso, pois as contínuas melhoras técnicas em câmaras permitiam um uso generalizado desta técnica a nível amador. A sua presença foi essencial em revistas e jornais, assumindo os mídia um papel preponderante na cultura visual do século XX.
Contudo, no terreno do nu a fotografia encontrou mais travas que nas artes tradicionais, nas que era um tema frequente e respeitado pelos meios acadêmicos, principalmente pelo realismo das suas imagens, e pela conotação moral que supunha que uma pessoa se despisse para ser captada pela câmara. Isto levou a fotografia do nu a ser considerada meramente pornografia, e a ser relegada a circuitos clandestinos. Praticamente até o século XX não alcançou a fotografia de nu um status de obra artística, especialmente graças a numerosos criadores que a conceberam esteticamente e depurada de qualquer conotação sexual. Na fotografia de nu é importante o processo de composição e iluminação, assim como de retoque, para conseguir os efeitos desejados, pois por ser um meio intrinsecamente realista capta o corpo humano com todas as suas imperfeições, feito aceite por alguns artistas, que preferem mostrar uma imagem mais aperfeiçoada, derivada dos cânones estéticos que o nu procurou à arte desde o idealismo da arte clássica.
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Fotografia de modelo e desenho baseado na fotografia, de Alfons Mucha (1928).
Desde os seus começos, a fotografia esteve estreitamente relacionada à pintura, e muitos artistas começaram a inspirar-se em fotografias para elaborar as suas obras: assim, Eugène Delacroix chegou a confessar no seu Diário que tiveram muita utilidade para a sua obra umas fotografias de nus masculinos realizadas por Jules-Claude Ziegler. O pintor romântico baseava-se muitas vezes em fotos para estudar os pormenores das obras que ia realizar, afirmando que “luzes e sombras adquirem o seu verdadeiro sentido e dão o grau exato de firmeza e de brandura”. No impressionismo, numerosos artistas basearam-se igualmente na fotografia, como Edgar Degas, Camille Pissarro ou Pierre-Auguste Renoir. Alfons Mucha, um dos melhores desenhistas e ilustradores do modernismo, dedicado especialmente ao cartazismo e as artes gráficas, baseou-se frequentemente na fotografia para muitas das suas composições, empregando uma enorme câmara de fole, com a que obtinha imagens que lhe serviam para as suas realizações artísticas.
Á procura de uma maior artisticidade que outorgasse categoria às suas obras, na segunda metade do século XIX muitos fotógrafos basearam-se em técnicas artísticas para realizar muitas das suas composições, outorgando um certo ar pictórico às suas obras, no que a composição e o jogo de luzes e sombras estão inspirados nos grandes gênios da pintura. Portanto, esta corrente foi denominada fotografia academicista, com representantes como André Adolphe Eugène Disderi, Émile Bayard, Eugène Durieu e Gaspard-Félix Tournachon.Um dos primeiros fotógrafos em dedicar-se com assiduidade ao nu foi Félix-Jacques Moulin, quem em 1849 abriu uma loja no bairro parisiense de Montmartre e começou a produzir daguerreótipos de senhoritas jovens em diversas poses. Contudo, em 1851 o seu trabalho foi confiscado, e foi sentenciado a um mês de prisão pelo caráter “obsceno” das suas obras. Outro pioneiro do nu fotográfico foi Oscar Gustav Rejlander, que em 1857 realizou um trabalho alegórico intitulado Os dois caminhos da vida, cujo objetivo é oferecer uma mensagem moral ao mostrar o mal à esquerda e o bem à direita, de jeito mais luminoso, no que se encontram a virtude, o trabalho e os bons costumes; porém, dado que a imagem mostra uma parcial nudez, provocou um escândalo social, sendo acusado de empregar prostitutas como modelos.
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Mulher baixando uma escada (1887), de Eadweard Muybridge.
Outro terreno de representação nudista foi o da experimentação científica, sendo de relevância os estudos de Eadweard Muybridge sobre o movimento humano, a partir de uma técnica denominada cronofotografia, que permitia captar o movimento mediante sucessivas tomadas instantâneas, experimentos que serviram de base para a posterior descoberta do cinematógrafo. Muybridge dedicou-se a registrar os movimentos dos seres humanos e dos animais do zoológico de Filadélfia, publicando os seus resultados em 1887 no livro Locomoção animal, que inclui nus como Dois homens nus lutando e Mulher baixando uma escada.
Entre o final do século XIX e o começo da Primeira Guerra Mundial desenvolveu-se o pictorialismo (do inglês picture, “imagem”), movimento que visava reivindicar a fotografia como um meio artístico que requeria de umas capacidades especiais —com especial ênfase nos valores intrínsecos da fotografia como arte—, afastando-a do amadorismo. Estes artistas distanciam-se da realidade para que as suas tomadas sejam imagens compositivas e não uma mera reprodução do ambiente físico, motivo pelo qual buscam deliberadamente o efeito floue, com uma forte influência do impressionismo. Alguns fotógrafos desta corrente realizaram nus de indubitável artisticidade, com o que o nu fotográfico começou a ser considerado uma arte afastada da simples pornografia, destacando-se Robert Demachy, muito conhecido pelas manipulações das suas obras proporcionando um acabamento similar às pinturas, e Alfred Stieglitz, primeiro em explorar a qualidade estética do estudo de fragmentos isolados do corpo humano. Os fotógrafos pictorialistas foram os primeiros em conseguirem introduzir o nu fotográfico em exposições e eventos artísticos de importância.
Em princípios do século XX, e em paralelo às vanguardas artísticas, a fotografia passou a ser um meio de inovação e experimentação artística, com novas técnicas e procedimentos como o fotomontagem. Um destes pioneiros foi Man Ray, impulsionador do dadaísmo e do surrealismo nos Estados Unidos, que chegou a fazer fotografias sem câmara, pondo objetos sobre apelícula e expondo-os por segundos à luz, criando imagens ambíguas entre a figuração e a abstração. Um exemplo desta experimentação com a luz é Beleza ultravioleta (1931). Uma das suas obras mais famosas é Le Violon d'Ingres (1924), onde retratou a sua modelo e amante Kiki de Montparnasse na postura da célebre pintura A Banhista de Valpinçon de Jean Auguste Dominique Ingres, mas sobrepondo sobre as costas despidas da modelo os dois “f” de um violoncelo.
Quanto ao expressionismo, destacou-se o tcheco František Drtikol, especializado no nu e no retrato. Influenciado pelo romantismo e pelo simbolismo, foi evoluindo para uma maior preocupação pelo espaço e pelas possibilidades arquitetônicas da luz. Emmanuel Sougez defendeu os princípios da Nova Objetividade, considerando a fotografia como uma arte autônoma. As suas primeiras fotografias tinham como tema principal a natureza morta e o nu, empregando uma estética austera e puramente fotográfica.
Nu masculino recreando A Criação de Adão de Michelangelo (1870), de Gaudenzio Marconi.
O nu masculino na fotografia não foi tão habitual quanto o feminino, mas teve uma produção constante durante toda a história da fotografia, especialmente em relação à arte homoerótica. O nu masculino não tinha em princípio tanta aceitação como o feminino, considerado o paradigma da beleza pela sociedade do século XIX, com uma visão ainda fortemente machista dos roles sexuais, na qual a possível sensibilidade para temas eróticos por parte da mulher não era considerada. Um dos pioneiros foi Gaudenzio Marconi, que retratou homens nus em poses imitadas das grandes obras de arte, como A Criação de Adão de Michelangelo (1870) ou A Idade do Bronze de Rodin (1877). Eugène Durieu também realizou fotografias com a intenção de servir de modelos para os artistas, ao jeito das academias desenhadas. Outro tipo de fotografias eram as que tinham fins científicos, como os estudos de movimento de Eadweard Muybridge, ou os estudos etnológicos e do âmbito desportivo. Pouco a pouco estas fotografias adquiriram maior artisticidade, e começaram a ser aceites como produtos estéticos, como se percebe na publicação Le Nu esthétique (1902), de Émile Bayard. Entre final do século XIX e princípios do XX foi desenvolvido o nu masculino, concebido plenamente como imagens evocadoras da beleza masculina, desenvolvido por fotógrafos como Wilhelm von Gloeden, Wilhelm von Plüschow, Fred Holland Day, Vincenzo Galdi, etc. Após a Primeira Guerra Mundial começou o culto ao corpo, pondo-se de moda o nudismo e a cultura física, os corpos musculosos e varonis frente ao efébico modelo da fotografia artística anterior. Um dos fotógrafos que melhor retrataram esta estética foi Kurt Reichert. Esta tendência ressaltou-se após a segunda contenda mundial, onde o culturismo pôs de moda um corpo excessivamente musculado, que recebeu a alcunha beefcake (“pastel de carne”), representado por fotógrafos como Bob Mizer e Bruce Bellas. Posteriormente, o nu masculino foi adquirindo com o tempo o mesmo nível de artisticidade e aceitação social que o feminino, enquanto foi adquirindo cada vez maior explicitude —como no terreno da ereção, até então um tema tabu—, sendo praticado por fotógrafos do nível de George Platt Lynes, Carl Van Vechten, Herbert List, Bruce Weber, Roy Blakey, etc. Um dos mais famosos e controversos foi Robert Mapplethorpe, dedicado especialmente ao nu de homens afroamericanos, com uma obra de fortes conotações sadomasoquistas.
Atualmente, o nu artístico é plenamente aceite na sociedade ocidental, e é frequente a sua presença nos mídia e na publicidade, com três modalidades principais: o nu abstrato, o nu erótico e o nu desportivo; e três setores principais de aplicação: o nu puramente artístico, o nu publicitário e o nu editorial.3 Um dos mais afamados fotógrafos da segunda metade do século XX foi Helmut Newton, criador de um estilo próprio, cheio de glamour e sedução, com belas mulheres em ambientes luxuosos, e uma certa tendência para o fetichismo. Os seus modelos costumam ser de complexão atlética, mas elegantes e sofisticadas, como se viu na sua série de Big nudes (“grandes nus”) dos anos 1980.
Entre 1970 e 1980 foi destacada a obra de David Hamilton, arquiteto e decorador —foi diretor artístico das revistas Elle e Queen— antes de se iniciar na fotografia de jeito amador. Em 1962 adquiriu a sua primeira câmara, com a que desenvolveu um estilo de fotografias de tom luminoso, com cores suaves e um grão grosso —técnica que passou a ser denominada “atmosfera hamiltoniana”—, com uma estética algo naïf, e preferência pelos disparos ao ar livre, com especial predileção pelos ambientes mediterrâneos da Costa Azul francesa. Contudo, a sua obra esteve embaciada por retratar em numerosas ocasiões a novos adolescentes, apresentadas em poses naturais e algo ingênuas. Diretor de cine além de fotógrafo, realizou filmes como Bilitis (1977), Laura (1979) e Tenras primas (1980).
Outros fotógrafos destacados destes anos foram: Peter Lindbergh, considerado como um dos melhores fotógrafos de moda do mundo da década de 1990; Herb Ritts, fotógrafo de modas; Jiří Růžek, especialista em nu artístico e glamour, com uma sutil e delicada sensualidade carregada de erotismo; Helena Almeida, pintora e fotógrafa que incorpora pigmentos e materiais próprios das artes plásticas nas suas obras, que costumam ser auto-retratos; Nobuyoshi Araki, interessado pelo sexo e a morte, com uma controversa obra de forte natureza sado-masoquista; Narcis Virgiliu, com uma obra de um certo tom surrealista e abstratizante, com referências a temas mitológicos —como os mitos de Sísifo e Pigmalão— ou à relação entre a vida e a natureza; Wacław Wantuch, autor de nus semelhantes a esculturas, com um especial cuidado na iluminação e buscando ângulos espetaculosos; Misha Gordin, pioneiro do nu conceptual, com surpreendentes imagens elaboradas num quarto obscuro tradicional com a técnica de mascaramento.
Cabe sublinhar o trabalho de Spencer Tunick, conhecido pelas suas fotografias de grandes massas de gente despida dispostas em diversas localizações urbanas, variando a postura e disposição das pessoas, geralmente voluntários que acodem a um ato artístico concebido quase como uma performance ou instalação. Começou em 1992 fotografando pessoas despidas pelas ruas de Nova York, passando posteriormente a outros estados de América do Norte, no seu projeto denominado Naked States (“Estados nus”). Mais tarde fez uma gira internacional, à que denominou Nude Adrift (“Nu à deriva”). Em 2003 chegou a fotografar 7000 pessoas despidas em Barcelona, um record superado em 2007 na Cidade do México, com 19 000 participantes. Tunick converte o corpo em parte integrante da cidade, da paisagem, buscando transcender a essência da materialidade humana, pois a perda da individuação no grupo metamorfoseia a corporeidade numa entidade superior, de ordem espiritual, onde se desenfeitiza o corpo nu, que se torna num veículo para a arte.Cine
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Inspiração (1915), primeira filme americano não pornográfica que continha cenas de nu.
O cine, técnica baseada na reprodução de imagens em movimento, surgiu com o invento do cinematógrafo pelos irmãos Lumière em 1895. Se bem que em princípio unicamente implicava a captação de imagens do natural, como se fosse um documentário, de seguida a cinematografia evoluiu para a narração de histórias, com processos técnicos como a montagem, que permitiam rodar cenas e ordená-las de modo que apresentasse uma história coerente. Com a incorporação de elementos tomados do teatro —processo iniciado por Méliès—, o cine alcançou um grau de autêntica artisticidade, sendo batizado como o “sétima arte”.nota 7
O nu no cine esteve frequentemente ligado ao cine erótico e pornográfico, embora numerosos filmes comerciais apresentaram nus parciais ou totais por “exigências do roteiro” . Já nos primeiros anos, no chamado “cine mudo”, encontram-se diversos casos sobretudo na indústria norte-americana de Hollywood: Inspiração (1915), foi o primeiro filme não pornográfico que apresentou cenas de nu, ao qual se seguiram casos como Hipócritas (1915), A filha dos deuses (1916), etc. Contudo, entre 1934 e 1960 o nu foi proibido nos Estados Unidos pelo Código de produção cinematográfica, também conhecido como Código Hays. Fora deste código encontravam-se os filmes nudistas, concebidos para difundir este estilo de vida, embora em numerosas ocasiões servissem de pretexto para mostrar nus de jeito pouco justificado.
O imoral Mr. Teias (1959) de Russ Meyer, foi a primeira longa-metragem não naturista que exibia abertamente a nudez e, embora fosse qualificado de pornográfico, deu origem a um gênero chamado Nudies ou Nudie-cuties, com filmes como The adventures of Lucky Pierre (1961). Nos anos 1960 surgiu um gênero denominado sexploitation, mistura de sexo e violência, com exemplos como ' Sexploiters (1965). Também nos 1960 começaram a surgir nus em filmes correntes do circuito comercial, tratados com maior naturalidade, como em Peeping Tom (1960), que contém a primeira cena de nu feminino num filme do pós-guerra, à qual se seguiram: Promessas! Promessas! (1963), Midnight Cowboy (1969), Laranja Mecânica (1971), etc.
Na Europa, o nu no cine teve uma evolução paralela, com maior ou menor intervenção da censura ou da qualificação de filmes segundo os diversos países. O primeiro nu feminino integral foi protagonizado pela atriz Hedy Lamarr no filme Êxtase, dirigida por Gustav Machatý em 1933, que chegou a ser condenada pelo Papa Pio XI. Outros exemplos de nu no cine europeu são: Lui, Se Se (1952), Verão com Monika (1953), , Belle de jour (1967), etc. Mulheres apaixonadas (1969) gerou polêmica por mostrar nus masculinos frontais numa cena de luta entre Oliver Reed e Alan Bates; Glenda Jackson ganhou o Óscar à melhor atriz no filme, o primeiro ator que o ganhou por um papel que incluía cenas de nu. Último tango em Paris (1973), de Bernardo Bertolucci, foi um dos primeiros filmes comerciais em mostrar o nu sem rodeios, em paralelo à revolução sexual propugnada pelo movimento hippie, e propiciou o boom do cine erótico, em voga entre 1970 e 1980, com filmes como Emmanuelle (1974) e História de O (1975), de Just Jaeckin, O Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima, e Calígula (1979), de Tinto Brass.
Passados os anos em que o nu no cine era motivo de escândalo e provocação, atualmente a sua presença é assumida com certa naturalidade, sendo frequentes os filmes nos quais o nu se mostra em cenas que assim o requerem, como as que transcorrem na natureza, quer no banho ou em cenas de amor. Assim, por exemplo, A lagoa azul (1980), de Randal Kleiser, mostra o despertar do instinto sexual em dois náufragos numa ilha tropical, onde o nu é parte consubstancial do ambiente natural em que se movimentam. A Bela Intrigante (1991), de Jacques Rivette, mostra a relação entre um pintor e a modelo, que posa despida para ele e volta-o motivar após uma etapa de falta de inspiração do artista. Igual ocorre em Titanic (1997), de James Cameron, no que Kate Winslet posa despida para que a desenhe Leonardo di Caprio. Estes filmes evidenciam a estreita relação entre o cine e a arte tradicional, que no âmbito do nu artístico deixou realizações como As Aventuras do Barão Munchausen (1988), de Terry Gilliam, onde aparece Uma Thurman posando como a Vênus de O Nascimento de Vênus de Botticelli.
Assim, nestes últimos anos não é estranho encontrar cenas de nu em filmes comerciais como Splash (1984, Ron Howard), Nove semanas e meia (1986, Adrian Lyne), Instinto básico (1992, Paul Verhoeven), Prêt-à-Porter (1994, Robert Altman), The Full Monty (1997, Peter Cattaneo), Eyes Wide Shut (1999, Stanley Kubrick), etc. Atualmente, o nu é até mesmo uma forma de cotização para atores e atrizes, pois é um forte reclamo para o público, existindo a opinião de que um dos fatores do Óscar à melhor atriz para Halle Berry por Monster's Ball (2001) foi a sua aparição despida no filme.162 Um dos filmes com maior número de nus coletivos —requereu 750 extras— foi O perfume (2006), de Tom Tykwer, onde na cena final, em que o assassino vai ser justiçado, este espalha uma fragrância que hipnotiza o público assistente, que se põe numa desenfreada orgia que permite o prófugo escapar.
O nu masculino, embora não tão frequente quanto o feminino, também esteve presente em numerosas produções, praticado por atores como: Richard Gere (American Gigolo, 1980), Arnold Schwarzenegger (Terminator, 1984), etc.164Artes cênicas
Josephine Baker na revista Un vent de folie (1925).
O nu é também um recurso habitual nas artes cênicas como o teatro e a dança, especialmente desde meados do século XX. Nestas formas artísticas o corpo tem uma especial relevância, pois é transmissor, pelos seus gestos e movimentos, de uma grande quantidade de expressões e sentimentos. No teatro, onde se encena um conto ou drama literário, o nu pode estar justificado —como no cine— pelo roteiro, em cenas no âmbito doméstico ou qualquer situação que o requeira. O nu teatral adquiriu um grande auge nestes últimos tempos graças ao teatro experimental e à influência do happening e a performance, espetáculos que pela sua representação ante um público têm um forte componente teatral. Em tais casos a nudez é empregue como forma de provocação, de impactar o público, de pôr em dúvida os convencionalismos sociais.
Contudo, o nu chegou também ao teatro clássico, em casos como o papel de Desdémona representado pela atriz Sarah Stephenson na montagem do Otelo de Shakespeare efetuado no Mermaid Theatre de Londres em 1971. Em 2007 houve uma grande polêmica pela aparição de Daniel Radcliffe nu na obra Equus, dirigida por Peter Shaffer no Gielgud Theatre da capital inglesa. Radcliffe insistiu em que o nu era somente um elemento mais na obra. A obra conseguiu um enorme sucesso, tanto de público como de crítica.
Na dança, o nu adquire um especial significado, pois é uma forma de expressão do corpo humano, que é o instrumento do qual se servem os bailarinos para mostrar a sua arte. As técnicas de dança requerem grande concentração para dominar todo o corpo, com especial insistência na flexibilidade, na coordenação e no ritmo. Na antiga Roma era frequente que as dançarinas se despissem, especialmente nas festas saturnais e lupercais, sendo prova do seu sucesso o que chegassem até a atualidade os nomes de algumas destas bailarinas, como Taletusa e Cíteris.
No século XX buscaram-se novas formas de expressão baseadas na liberdade do gesto corporal, liberto das ataduras da métrica e do ritmo, adquirindo maior relevância a auto-expressão corporal e a relação com o espaço. Isadora Duncan foi uma das principais promotoras do nu na dança, bailando em numerosas ocasiões seminua ou com finas telas transparentes, como se podia constatar nos copos e nas cerâmicas da Grécia Antiga, com a pretensão de romper com o academismo e a rigidez do ballet clássico.168 Desde então a nudez na dança contemporânea oscilou segundo a época, aparecendo à época de liberdade e aberturista social, e retraindo-se em períodos de moral mais puritana. Em tempos modernos o corpo nu foi usado por coreógrafos como Jan Fabre, Daniel Léveillé, Maureen Fleming, Lia Rodríguez, Alban Richard, Eléonore Didier, Anna Ventura, Kataline Patkaï.
O nu foi adquirindo relevância na dança especialmente desde a década de 1960, concebido como a mais pura forma de expressão do corpo. Se nos 60 estava em consonância com a libertação sexual, nos anos 1980 teve certo aspecto de reivindicação política, enquanto atualmente é uma mera escolha estética. Para a historiadora Rose Lee Goldberg, a nudez seria uma reação contra a excessiva técnica dos meios audiovisuais, afirmando que “é como se cada certo tempo precisássemos lembrar que a coreografia tem a ver com o corpo”.
Ainda que atualmente seja frequente a nudez na dança, há alguns anos era um tema incômodo, até mesmo para coreógrafos inovadores como Merce Cunningham, que no seu balé Rain Forest (1968), no qual colaborou com o artista pop Andy Warhol, frente à sugestão deste de que os bailarinos atuassem nus, decidiu usar malhas de cor pele, que em algumas cenas estavam cortadas para dar a sensação de aranhões na pele. Em 1970 Yonne Rainer apresentou no Judson Flag Show a bailarinos nus sob bandeiras norte-americanas, que gerou uma grande polêmica. Porém, pouco a pouco a nudez foi ganhando terreno: nos 1980, a companhia Dancenoise, formada por Lucy Sexton e Anne Iobst, usou a nudez como uma ferramenta integral, junto a uma estética punk e outros elementos de grande impacto, como o sangue, em espetáculos próximos da performance. Para Sexton, “a nudez de seguida converte-se em vestuário, e essa é a natureza de estar nu no palco: há um momento inicial em que se abre a porta e cai algum tipo de barreira entre o artista e o público. Eles estão nervosos e excitados e ao artista acontece o mesmo, e elimina-se algum tabu social”.
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Colette Andris, bailarina de striptease dos anos 1920.
Outros trabalhos onde a nudez tem um papel protagonista foram: Glory, de Jeremy Wade, um duo nu que apresenta aos bailarinos arrastando-se e retorcendo-se pelo chão, como signo de vulnerabilidade; Giant Empty e Excessories, de Miguel Gutiérrez, no qual os artistas se tocavam os peitos e os pénis, como mostra de objetuação do corpo; Michael, de Ann Liv Young, no qual o nu é uma metáfora de autenticidade, de naturalidade do corpo; ou NOVA, de Rose Anne Spradlin, onde bailarinos rasgam com tesoiras a roupa a outros até os deixar nus.
Uma variante cênica na que adquiriu grande relevância o nu —especialmente desde princípios do século XX— foi o cabaré, espetáculo geralmente noturno que costuma combinar música, dança e canção —mas que pode incluir também a atuação de humoristas, ilusionistas, mimos e muitas outras artes cênicas -, desenvolvido em salas como Moulin Rouge e Folies Bergère de Paris, onde estrelas como Linopovska e Pouliguen triunfaram com tão somente mostrar os seios nus integrais. Foi nos cabarés que apareceram os primeiros travestis num palco, e onde se representaram as primeiras pantomimas de homossexuais e lesbianas. Neste tipo de espetáculos triunfaram estrelas como Loïe Fuller, Cléo de Mérode e Josephine Baker, que se tornou famosa ao dançar o charleston vestida somente com um cinturão de bananas.
Espetáculos como o cabaré puseram em voga o strip-tease, uma forma de dança na que a pessoa executante se vai tirando a roupa sensualmente ante os espectadores, no que o deleite estético se encontra no fato de se despir com movimentos sensuais, e não na própria nudez. Este tipo de espetáculo fez famosa à célebre Mata Hari em princípios do século XX, enquanto atualmente lançou ao estrelato a figuras como Dita Von Teese e Chiqui Martí, defensora do strip-tease como arte, para o que cunhou o termo strip-art. Igualmente, o strip-tease foi um recurso frequentemente usado pelo cine, como o de Brigitte Bardot e Jeanne Moreau em Viva Maria! (1965), Kim Basinger em Nove Semanas e Meia (1986) e Demi Moore em Striptease (1996).Outros meios
Bettina, modelo pin-up de SuicideGirls, página web de softcore altporn cujas modelos têm um perfil gótico ou punk.
O nu encontra-se presente, além de nos meios artísticos tradicionais, em outros meios de reprodução audiovisual, como a televisão, a publicidade, as revistas e demais meios editoriais, o revista em quadrinhos ou, mais recentemente, internet. A representação de nus dentro de filmes e televisão gerou polêmica durante muito tempo. A nudez integral teve muita mais aceitação no cine e na televisão europeus, onde —em contraste com os seus homólogos norte-americanos— a audiência percebe em geral o nu e a sexualidade como um pouco menos censurável que a violência, outro dos fatores frequentemente criticados nas produções audiovisuais. Contudo, o nu num contexto sexual não pornográfico ficou em muitos países europeus no fio do qual é socialmente aceitável para espetáculos públicos, apesar de que esta situação foi liberalizada no final do século XX: na década de 1970 as soap operas australianas Number 96 e The Box incluíam nus regularmente, e nos Países Baixos o nu foi mostrado em programas de debate como Jensen! e Giel.
As emissoras de televisão e a maioria das companhias de televisão por cabo nos Estados Unidos foram mais reticentes a mostrarem nus, sendo uma exceção a PBS. Quando se transmitem em televisão, os filmes teatrais que contêm nus normalmente se emitem com essas cenas cortadas, ou o nu é ocultado de alguma forma, como com imagens digitais para vestir os atores nus. Alguns serviços de cabo premium como HBO, Showtime e, mais recentemente, FX Networks obtiveram popularidade por, entre outras coisas, apresentar filmes sem retocar. Adicionalmente, produziram séries que não se mostram tímidas com as cenas de nus, como Oz, Sex and the City, The Sopranos, True Blood.
As séries de televisão rara vez mostraram nus atrevidos. Depois do escândalo motivado pelo espetáculo de Janet Jackson no descanso da Super Bowl de 2004 —onde a artista ensinou um peito sem querer—, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos declarou que era hora de tomar medidas drásticas para a televisão diurna, e as nove cadeias norte-americanas começaram a impor uma regra não escrita para evitar qualquer classe de cenas para adultos atrevidas. Contudo, no âmbito europeu o nu é exibido cada vez com maior naturalidade, em séries como: Roma, Espártaco, Os Tudor.
A nudez apresenta-se ocasionalmente em outros meios de comunicação como capas de albumes musicais de intérpretes como Jimi Hendrix, John Lennon e Yoko Ono, Scorpions. Vários músicos de rock atuaram nus nos palcos, incluindo membros de Jane's Addiction, Rage Against the Machine, Green Day, Black Sabbath, Stone Temple Pilots, The Jesus Lizard, Blind Melon, Red Hot Chili Peppers, Blink-182, Queens of the Stone Age, Of Montreal e The Bravery.
Augusto De Luca: "Models", nudes 1980
Em meios editoriais, o nu foi um recurso frequentemente usado como reclamo especialmente para o público masculino, quer em revistas de corte erótico ou em magazines de notícias e reportagens que incluem algumas páginas de modelos despidas, onde é típica a presença de um pôster central desdobrável. Em princípios do século XX as modelos que apareciam neste tipo de publicações recebiam a alcunha de pin-ups, e embora pelo general fossem modelos amadoras algumas adquiriram notável fama, como Bettie Page. Contudo, atualmente este tipo de trabalhos realizam-nos modelos fotográficas, atrizes de cine, cantantes ou top-models do mundo da moda e da publicidade. Algumas revistas dedicadas ao nu erótico atingiram uma grande notoriedade e difusão mundial, como Playboy, Penthouse e Hustler, chegando a desnudar a famosas modelos e atrizes, como Marilyn Monroe, que inaugurou o primeiro número de Playboy em 1953, ou Madonna, que em 1985 apareceu em Playboy e Penthouse.
Outro meio usual de difusão do nu erótico são os calendários, destacando-se pela sua qualidade o Calendário Pirelli, elaborado desde 1964 pela seção britânica da marca Pirelli, e que se caracteriza pela sensualidade das suas imagens.
O nu encontra-se assim mesmo num meio gráfico como a revista em quadrinhos, geralmente numa temática erótica e dirigido para um público adulto. Aqui também existe uma distinção entre erotismo e pornografia, dependendo das imagens, como se percebe no Japão, onde distinguem entre os gêneros ecchi (エッチ), que não mostra sexo explícito, e hentai (変態), que sim o faz. A primeira historieta na que esteve presente o erotismo foi Bringing Up Father (1913), de George McManus, na qual apareciam banhistas jovens. Outra das pioneiras foi Betty Boop, desenhada por Grim Natwick e Max Fleischer entre 1934 e 1937. Nos anos 1960, a incipiente revolução sexual permitiu à revista em quadrinhos erótica superar o moralismo dos 50 por diversos caminhos: na França, foram editadas revistas em quadrinhos de luxo com heroínas independentes e ativas sexualmente, como Barbarella (1962), de Jean-Claude Forest.
A aparição de internet implicou um grande meio de difusão do nu, nas suas múltiplas variantes, do nu artístico ao erótico e pornográfico. Muitas páginas web contam com este tipo de material como reclamo para o público, sendo especialmente demandadas as imagens de personagens famosos - as chamadas celebrity—. Em internet são recopiladas todo tipo de imagens provenientes de revistas, calendários e publicações de moda, além de fotografias feitas especialmente para este meio, existindo um abundante material, sobretudo de atrizes e modelos femininas, com nomes mundialmente conhecidos. O nu masculino é menos frequente, e costuma estar mais restringido a âmbitos homoeróticos. O nu artístico também dispõe em internet de uma ótima plataforma de lançamento, e muitos fotógrafos expõem a sua obra neste meio para fazer a conhecer o seu trabalho